Thursday, July 27, 2017

CINCO SHOWS QUE PODEM SURPREENDER POSITIVAMENTE NO 6° SANTOS JAZZ FESTIVAL

por Chico Marques



ARI KUMAR BLUES BAND
(Sexta 28/07 - 18 horas - gratis)

Ari Kumar tem 37 anos de idade e nasceu em Mumbai, na Índia. Estudou Ciências Tecnológicas na San Jose State University, no Norte da California, e logo arrumou emprego na Adobe, em Silicon Valley. Descobriu o blues ainda na Índia, em discos de seus pais, que eram bem ecléticos em termos musicais, e começou a tocar harmônica meio que da brincadeira. Só foi mergulhar de cabeça na musicalidade dos negros americanos quando descobriu o mapa da mina para os bares de blues de Oakland e Berkeley, cidades próximas a San Francisco. De canja em canja, acabou virando uma figura conhecida na Bay Area, e pouco a pouco deixou que isso se transformasse numa segunda profissão. Comanda uma banda brilhante, que o ajudou a forjar dois discos muito engenhosos com uma fusão musical east-west menos experimental e mais palatável ao grande público do que aquela tentada pela lendária Butterfield Blues Band nos Anos 60. Resta saber se os músicos de blues brasileiros que acompanham Ari Kumar nesses shows pelo Brasil vão embarcar com ele nessa aventura musical multicultural, ou se vão simplesmente montar um repertório de blues básicos sem contraindicações, mas bem menos aventuresco que praticado pela Ari Kumar Blues Band americana original. Aconteça o que acontecer, vale uma conferida.

THIAGO ESPÍRITO SANTO + SÍLVIA GOES + ALBA SANTOS
(Sábado 29/07 - 18:30 horas - gratis)

Thiago Espírito Santo é um felizardo. Criado numa família musical, aprendeu com o pai a  nunca ter preconceito com modalidades musicais supostamente "inferiores" e sempre viajar pelos mais diversos fronts musicais. Da mãe -- a musicóloga, arranjadora, compositora e pianista Sílvia Goes -- ele tratou de absorver a sabedoria e a bagagem necessárias para dar solidez e consistência a suas aventuras musicais. Depois de muitos anos de convívio musical constante, mãe e filho agora podem se deixar guiar pelo instinto sem medo de pisar em falso, e passeiam pelos mais diversos ritmos brasileiros como se estivessem na sala de casa. De samba em samba, de choro em choro, de bolero em bolero, Sílvia e Thiago saem mapeando descompromissadamente os sons do Brasil, e os mesclando com toques de jazz -- sempre com a ajuda da cantora espanhola Alba Santos, que imprime um toque latino inusitado a toda essa mistura musical. Um show que promete ser, no mínimo, muito agradável.

IGOR WILLCOX 4TET
(Sábado 29/07 - 20 horas - gratis)

Baterista e compositor, Igor Willcox já pode ser considerado um veterano, pois vem de uma grande família musical santista e toca desde menino tanto em grupos de jazz fusion quanto em bandas de jazz tradicional e de artistas pop, como Guilherme Arantes. Nesse show à frente de seu quarteto -- Clayton Sousa no saxofone, Vini Morales nos teclados e Glécio Nascimento no baixo --, Igor apresenta suas próprias composições que estão em seu primeiro álbum solo, o recém-lançado "#1", que chega muito elogiado pela crítica nacional e internacional, com destaque especial no conceituadíssimo portal jazzístico All About Jazz. Igor Willcox faz jazz-fusion de alto gabarito, sem a menor contra-indicação. Não perca esse show.

JEZ CONDADO BLUES BAND
(Domingo 30/07 - 17 horas - gratis)

Jez Condado é uma bela cantora, baixista e guitarrista de Mendoza, Argentina, que fez carreira em Buenos Aires em bandas como The Good Girls e The Hoochie Coochie Girls entre 2006 e 2014. Estudou guitarra, baixo e canto na Escola de Blues de Buenos Aires entre 2008 e 2011. Sabe-se lá o que a trouxe a São Carlos, no interior de São Paulo, em 2015, mas o Brasil agradece o fato dela ter decidido fixar residência por aqui. Seu segundo disco solo, "Natural", só com composições próprias em espanhol, português e inglês, é surpreendente de tão bom. Aos 32 anos de idade, Jez Condado está vindo a Santos pela primeira vez, e quem gosta de blues não pode deixar de estar lá para vê-la e ouvi-la. Eu diria inclusive que ela merece receber a Chave da Cidade, para voltar sempre que quiser.

ROBERTO SION + ANAÍ ROSA
(Domingo 30/07 - 18:30 horas - gratis)

Saxofonista, flautista, clarinetista, arranjador, compositor, maestro e professor, Roberto Sion tem sido ao longo dos últimos 40 anos um gigante da música instrumental brasileira. Estudou na Berklee School Of Music em Boston nos Anos 70 e teve como professor o craque absoluto do sax alto Lee Konitz. Foi integrante do lendário grupo instrumental Pau Brasil nos Anos 80. E hoje é regente da gloriosa Orquestra Jovem Tom Jobim, entre muitas atividades musicais educativas que desenvolve. O repertório que ele e a cantora Anaí Rosa prepararam para a apresentação deste domingo é bem eclético, bem despojado e deve agradar a todos os que estão com saudades desse grande santista nos palcos desta cidade.






REDESCOBRINDO SUSAN SONTAG ATRAVÉS DE UMA VELHA ENTREVISTA MUITO REVELADORA



Susan Sontag é o que se poderia chamar de uma rebelde americana.

Foi uma artista e pensadora absolutamente original.

Nasceu em 16 de Julho de 1933 na cidade de Nova York, mas circulou bastante pela América e pela Europa ainda bem jovem.

Estudou Arte e Filosofia em Harvard, e foi, além de ensaísta e ficcionista, crítica de arte, dramaturga, cineasta e ativista política.

Mesmo sabendo ser lésbica desde os 16 anos, Susan decidiu se casar com um amigo e teve um filho, pois tinha certeza de que viver a experiência da maternidade iria acrescentar algo muito muito importante a sua vida.

Durante seu casamento, teve namorados e namoradas interessantíssimos, como o filósofo Herbert Marcuse, a milionária Nicole Stéphane Rothschild e a coreógrafa Luciana Childs.

Nos últimos anos de vida, teve como companheira a fotógrafa Annie Leibowitz (foto), com que viveu até seus últimos dias.


Em plena efervescência dos Anos 60, Susan Sontag descreveu num ensaio clássico publicado no The New York Review Of Books que as paixões do intelecto são movidas pela avidez, pelo apetite, pela aspiração, pelo anseio, pela apetência, pela insaciabilidade, pelo arrebatamento e pela inclinação.

Desnecessário dizer que, depois disso, passou a ter uma legião de seguidores fieis entre os jovens intelectuais que não se sentiam pelo que pensavam no formato mais tradicional.

Tornou-se rapidamente a filósofa americana sob medida para os novos tempos que estavam chegando.


Lembro perfeitamente bem quando li pela primeira vez alguma coisa de Susan Sontag.

Foi na edição brasileira da PLAYBOY, que publicou por volta de 1977 um conto fantástico simplesmente sensacional intitulado O Bebê.

Fiquei boquiaberto com a pegada fortíssima dela como ficcionista, e corri imediatamente atrás de outros títulos de Susan na Livraria Antiquário -- um sebo muito bom que funciona desde os Anos 70 na 108 Sul, em Brasília DF, onde eu morei alguns anos.

Encontrei vários títulos: dois em português (a reportagem Viagem a Hanoi e o romance Morte em Questãoe dois em inglês (o romance The Benefactor e a coleção de contos I, etcetera, que continha The Baby).

Devorei todos, um por um, mas confesso que nada alí me impressionou tanto quanto O Bebê.

Confesso que terminei minha primeira incursão sontagiana com um certo gosto de decepção na boca.


Mas a decepção não durou muito tempo.

Alguns meses mais tarde, já na Universidade de Brasília, onde cursei Letras, um de meus professores de teoria da literatura me recomendou a leitura de Against Interpretation, ensaio clássico dela escrito no comecinho dos anos 60, sob a influência dos estruturalistas e semiologistas franceses, mas com um foco muito próprio, muito americano.

A partir daí, comecei a ler todos os volumes de ensaios de Susan Sontag que estavam disponíveis na Biblioteca da UnB.

Foi quando descobri que a super-intelectual dos sonhos, pouco afeita a academicismos e com a rara habilidade de opinar sobre os mais diversos assuntos com muita propriedade, existia de verdade.


Passei a acompanhar a carreira de Susan Sontag com avidez.

Vibrei com as discussões divertidíssimas nas páginas da Ilustrada na Folha de S. Paulo entre os amigos Paulo Francis (que não gostava dela) e Sérgio Augusto (que a adorava).

E quase fui ao delírio quando a Rolling Stone Magazine -- que eu assinava, e que acabara de mudar sua sede de San Francisco para Nova York -- publicou uma longa entrevista de seu editor contribuinte Jonathan Cott com Susan Sontag em seu apartamento em Central Park West, com direito a destaque na capa e tudo mais.

Para mim, que já conhecia sua obra, mas sabia pouco de sua vida pessoal, foi uma leitura deliciosa e reveladora.

Imagino o quão importante ela pode ter sido para quem não a conhecia antes, e a ficou conhecendo pela Rolling Stone....


O que eu não sabia é que apenas um quarto da longa entrevista de doze horas havia sido publicado pela revista, pois enveredava demais por questões intelectuais muito profundas que certamente não interessaram aos editores da Rolling Stone.

E então, em 2013, um ano antes do décimo aniversário da morte de Susan, Jonathan Cott decidiu transformar em livro a longa entrevista.

O motivo?

Achou que ela poderia servir para as novas gerações como uma espécie de introdução ao universo temático e ao pensamento libertário de Susan Sontag.

Pois achou certo.

O livro foi muito bem recebido pelo público, e foi um merecido sucesso editorial para a Rolling Stone Press.


Para mim, foi uma surpresa saber no ano passado que existia uma edição do livro em português, lançado sem muito alarde pela Editora Autêntica com o título Susan Sontag – Entrevista Completa para a Revista Rolling Stone.

Como o autor Jonathan Cott explica no prefácio, “Susan não dizia frases, mas parágrafos extensos e bem cuidados. E o que me chamou mais atenção foi a exatidão e o ajuste moral e linguístico”.

A conversa entre os dois rola de maneira concisa, natural e espontânea, mas também num tom altamente literário e com uma convicção de opiniões impressionante.

Susan fala sobre sua luta contra a leucemia que deu origem a seu livro A Doença Como Metáfora, onde filosofa sobre a maneira com que o câncer e a tuberculose carregam em si a sensação de que o doente é culpado, o que faz com que ele ou ela frequentemente esconda a doença.

Critica a arbitrariedade dos estereótipos sexuais e defende a emancipação feminina -- não apenas na igualdade de direitos, mas também na divisão de poderes e estruturas científicas e artísticas.

De quebra, toca num vespeiro que certamente irritou bastante muitas feministas amigas dela, ao afirmar categoricamente que não existe uma escrita feminina, e que quem defende isso está cometendo um grande desserviço à afirmação artística das mulheres em geral.

E também revê as bases de seu ativismo político, defendendo os direitos das pessoas que vivem à margem do mainstream por opção existencial, além de discutir longamente sobre fotografia, sobre seu mestre Roland Barthes, sobre sua amiga roqueira Patti Smith ("Que outro artista de rock leu Nietzsche?", ela pergunta), entre vários outros assuntos extremamente pertinentes.


Ao final da entrevista, descobrimos como funcionava a Susan Sontag escritora ("Sou indisciplinada, intensa, obsessiva e autodestrutiva, pois minhas costas doem, meus dedos doem, tenho dores de cabeça”).

Descobrimos também o que movia a Susan Sontag leitora (“Ler é minha diversão, minha distração, meu consolo, meu pequeno suicídio. Quando não consigo suportar o mundo, me enrosco a um livro, e é como se uma nave espacial me afastasse de tudo”).

Em seus últimos dez anos de vida, a ficcionista Susan Sontag que me decepcionou lá atrás com suas primeiras aventuras literárias acabou se revelando uma esteta extremamente habilidosa em três romances densos e de alto gabarito: Assim Vivemos HojeO Amante do Vulcão e Na América

Infelizmente, a entrevista é anterior a esses trabalhos, e revela uma escritora inacabada, ainda que a meio caminho da maturidade artística tão almejada, mas sem ter uma consciência muito clara disso.

Mesmo em uma situação como essa, de fragilidade aparente, Susan permanece impávida -- e ao final, difícil é não se encantar por essa mulher fascinante.



Susan Sontag - Entrevista Completa
para a revista Rolling Stone
editado por Jonathan Cott
tradução de Rogério Bettoni
Editora Autêntica
127 páginas
R$ 37,90

Chico Marques devora livros
desde que se conhece por gente.
Estudou Literatura Inglesa
na Universidade de Brasília
e leu com muito prazer
uma quantidade considerável
de volumes da espetacular
Biblioteca da UnB.
Vive em Santos SP, onde,
entre outros afazeres,
edita a revista cultural
LEVA UM CASAQUINHO


CÉUS DE ALGODÃO (uma crônica de Ademir Demarchi)



Isso não é coisa que alguém faça. Estão todos sempre olhando para a tevê, para as vitrines, ou para alguém que passa. Não que eu seja diferente, porém certo dia me peguei olhando para o céu e o vi recoberto de nuvens brancas. Um imenso céu de algodão. E alguém em sã consciência conseguiria ficar olhando nuvem por muito tempo? Com os pés sempre na terra, rapidamente o céu se dissipou, mas eu não devia mesmo estar pra pagar contas e passei a ver nele a imagem invertida da floresta que um dia existiu onde agora pisamos.

Sempre me espanto quando olho uma foto do início da colonização, em que há um caminhão saindo de um túnel de árvores e chegando na esplanada aberta de mata derrubada. É aquela mata, em que se cavava um túnel, que me intriga. A experiência dela não existe mais.

É certo que restaram três pequenas reservas, cada vez menores diante do que a cidade cresce, a ponto de a designação de pulmões verdes já se tornar quase inadequada, quase designação de uma doença. Já tive a impressão de olhar para algumas dessas árvores e receber de volta a sensação de que em sua madeira elas estavam urdindo esquifes. Ah, isso é lá coisa que se pense? É claro que não vão gastar madeira com isso, na era do plástico e até de caixões rosa, como um exposto numa feira de agentes funerários no Guarujá. Esse logo foi contemplado pelas ironias de ser caixão de boneca, como se isso desse a todos a certeza de que nenhum de nós iria entrar numa coisa daquelas...

Eu não devia mesmo estar bem, olhar pra nuvem e ver fantasma, olhar pra árvore e ver caixão...

O certo, porém, é que a sensação já experimentada de entrar na mata intocada, integrando o corpo àquele emaranhado de cipós, respirando o oxigênio puríssimo e fresco que em nada se assemelha aos gases carbônicos e de queima de álcool a que estamos habituados, caminhar pelo chão incerto, encontrar animais inesperados de toda espécie, águas de nascentes límpidas e tons de cores vivas, isso nunca mais.

Essa é a tragédia do espaço habitado – ele vai se transformando, de uma tal maneira que mesmo aquela boca maldita com gorilas, chimpanzés, onças disfarçadas e toda a fauna despenteada que se encontra nesses lugares, onde se tem a desculpa de que se toma café, em poucos anos some com uma rapidez tremenda.

Nasci em Maringá e há década e meia moro em Santos, mas sempre volto. Por isso, outro fato que me impressiona é que a Viação Garcia continua ligando essas duas cidades há décadas – ah, isso não muda, aqueles ônibus que observo com olhar estranho e ainda vejo jardineiras indo e vindo.

Essa deve ser uma sensação de quem muda de lugares, de voltar a eles e se deparar com vazios ou com ocupações inimaginadas, fantasmas de árvores, odores que não existem mais, afinal o tempo passa. Chega-se sempre a um lugar novo, tal como aqueles pioneiros que aqui chegavam e, depois de mato e mato a que eram indiferentes porque não viam valor naquilo, mas na terra, eles também, chegavam e viam o vazio como algo novo, sempre o começo de algo, uma fantasia que estava em suas mentes, melhor do que a que deixaram pra trás, então substituída por novos céus de algodão.

[publicado originalmente em 03/04/2008]




Ademir Demarchi é santista de Maringá, no Paraná,
onde nasceu em 7 de Abril de 1960.
Além de poeta, cronista e tradutor,
é editor da prestigiada revista BABEL.
Possui diversos livros publicados.
Seus poemas estão reunidos em "Pirão de Sereia"
e suas crônicas em "Siri Na Lata",
ambos publicados pela Realejo Livros e Edições.
(basta clicar nos nomes para ser enviado
ao website da editora)


Wednesday, July 26, 2017

O JACARÉ DA MIMO (uma crônica publicitária de Carlão Bittencourt)


“O melhor amigo do homem é o uísque.
O uísque é o cachorro engarrafado”
(Vinicius de Moraes)



Se os melhores perfumes estão nos menores frascos, o mesmo conceito pode ser aplicado às agências de propaganda. Quanto mais butique de criação o estilo da agência, mais gostosa de trabalhar.

A Momento de Propaganda era assim. Charmosa, ocupava dois andares de um lindo edifício na Haddock Lobo, quase esquina de Lorena. Ou seja, ficava num dos pontos mais agradáveis da cidade: os Jardins.

A Criação era no 12º andar, comandada por Sérgio Lima, grande Redator e Diretor de Criação. Inteligente, bem humorado e rápido no gatilho, Serjão montou um time tão afinado quanto enxuto. Modestamente. Luís Boralli, na Direção de Arte, eu, na redação, e ele, na supervisão.

Nossas contas mais importantes eram Encol e Brinquedos Mimo, clientes que faturavam horrores. Principalmente a construtora, então, no auge do Plano Cruzado. Dinheiro a dar com pau. Ou com tijolo.

Com nosso talento e aquele tesão louco que só os bons salários inspiram, dávamos conta dos jobs da agência durante o dia, e de outras tarefas mais nobres a partir do happy-hour. Ambas jornadas com pleno sucesso.

Certo dia, o contato que atendia a Mimo, pediu uma reunião com a gente. Queria nos passar o briefing da campanha de lançamento de um brinquedo. Sérgio marcou para a manhã seguinte, às 10 horas.

No horário combinado, estávamos à espera do atendimento. Duas horas depois o contato apareceu em nossa sala. Sérgio Lima estava puto dentro das calças, mas não acusou o golpe. Ficou quieto.

O tal contato, que adorava a própria voz, levou mais de uma hora para nos apresentar ao novo mimo da Mimo. Não precisava. Resumindo a missa pela metade, o brinquedo não passava de um autorama de pobre. Um carrinho elétrico muito sem vergonha que corria sozinho, preso a um fio de plástico da espessura de um macarrão spaghetti. Mais nada.

Sérgio, Boralli e eu ouvimos pacientemente toda a cantilena do rapaz que, no fundo, só queria impressionar a linda assistente. Mal sabia ele, que Sérgio já estava de trampolinagens com a moça. Há tempos.

Terminada a reunião, começamos a criar os filmes. Parecíamos três moleques em volta do brinquedo. No fim do dia tínhamos várias idéias para TV. Deixamos para apresentá-las internamente na data estipulada. Prazo é prazo. Dois dias depois, mostramos ao contato. Eram seis filmes.

Sérgio, que entende como poucos de apresentação, contou os comerciais. Tudo foi bem, até que ele chegou ao último. A historinha do garoto que montou o brinquedo no quarto.

Com sua imaginação fértil de criança, ele decorou a trajetória do carrinho com os objetos que tinha no ambiente. Assim, correndo pelo fio de spaghetti, o carrinho passava por baixo da cama, tirava uma fina do pé da cadeira, acompanhava a lateral do baú de bugigangas e entrava num “túnel” feito de caixas de sapatos. Ao sair, ele passava rente ao focinho de um cachorro vira-latas, fazendo com que o bicho pulasse para trás, assustado. Pronto. Era isso.

O contato pareceu frustrado com o desfecho da trama. Tanto que deu um palpite:

“Porra, Serjão, tá cheio de cachorro no ar! Não dá pra vocês botarem outro bicho nesse filme???”

Sérgio Lima prometeu mudar. A reunião acabou.

Corta para o dia da apresentação da campanha ao cliente. Eram dez pessoas em volta da mesa, imensa. De um lado, o time da Mimo, completo. Do outro, o pessoal da agência, formado por nós três da Criação, um Mídia, o tal contato e sua assistente, além do Diretor de Atendimento, Flávio Dragone, que era um dos sócios da Momento.

Sérgio Lima começou a contar os filmes com sua naturalidade habitual. Como estávamos de frente, eu e Boralli, fomos conferindo as reações dos clientes. E, a julgar pelos sorrisos e trocas de olhares, tudo ia bem. Até que Sérgio chegou ao último comercial, aquele em que o nosso contato pediu para trocarmos os bichos. Sérjão estava animadíssimo:

“Então, o carrinho passa por baixo da cama e tira uma fininha do pé da cadeira. Depois, segue a lateral do baú e entra num “túnel” feito de caixas de sapatos. E quando sai, ele passa bem no focinho do jacaré, que abre o bocão e dá um pulo pra trás, abanando o rabo!!!”

Nesse ponto, quem deu um pulo, foi o Gerente de Produtos da Mimo que, cheio de dedos, sugeriu:

“Um jacaré?!?!?! Peraí, Sérgio, mas será que não dá pra usar um bicho assim mais...normal???"

Para surpresa geral, Sérgio respondeu, apontando o dedo para o contato da agência, encolhido na cadeira, morto de vergonha:

"Nós criamos o filme com um cachorro super fofinho... Foi ele que pediu pra mudar!!!”

Poucas vezes em meus mais de 30 anos de propaganda, vi uma campanha ser aprovada em meio a tantas risadas, palmas e elogios.





Carlão Bittencourt
é redator publicitário
e cronista.
É autor de
"Pela Sete - Breves Histórias do Pano Verde"
(2003, Editora Codex),
um mergulho no universo
dos salões de bilhar de São Paulo
e escreve todas as quintas
em LEVA UM CASAQUINHO.


CARTILHINHAS DA VIDA "MUDERNA" II (uma crônica de Marcelo Rayel Correggiari)



“(...) Isso sempre aconteceu porque cinco ou seis obtiveram a confiança do tirano e se aproximaram dele por conta própria, ou foram chamados por ele para serem cúmplices de suas crueldades, companheiros de seus prazeres, favorecedores de suas libidinagens e beneficiários de suas rapinas.

(...) Fazem dar a eles o governo das províncias ou a administração do dinheiro público a fim de tê-los na mão por sua avidez ou crueldade, para que as exerçam oportunamente e façam tanto mal que não possam manter-se senão sob sua sombra nem se isentar das leis e das punições senão graças à sua proteção. (...) (...) Todos os vícios têm naturalmente um limite, além do qual não podem passar. Dois homens, e mesmo dez, podem ter medo de um só. Mas que mil, um milhão, mil cidades não se defendam de um só homem certamente não é covardia, pois ela não chega a esse ponto, assim como a valentia não exige que um só homem escale uma fortaleza, ataque um exército, conquiste um reino. Então, que vício monstruoso é esse, que não merece sequer o título de covardia, que não encontra nome suficientemente indecoroso, que a natureza se nega a conhecer e a língua se recusa a pronunciar? (...)”

[LA BOÉTIE, Etienne de. “Discurso da servidão voluntária” (texto integral). Tradução: Casemiro Linarth – São Paulo: Martin Claret, 2009, p. 34, 64 – (Coleção a obra-prima de cada autor, 304)



Esse merceeiro que semanalmente vos fala ruborizou-se um tanto em recente colóquio feicibuquiano com a denodada cubatense, intrépida santista e laboriosa paulistana, a jornalista e escritora Goimar Dantas, quando uma confissão se revelou deveras incômoda: “Xiii... minha filha. Só ando a ler os clássicos!”.

É bom avisar ao(à) querido(a) freguês(a) que ‘playlists’ bitoladas nem sempre resultam em boa coisa. É preciso, de tempos em tempos, arejar um pouco os ares.

Em períodos bicudos, apelamos legal aos clássicos para tentarmos alguma boa resposta à velha pergunta: “Mas que caralhos isso significa?!?”. É igualmente bom avisar que nem sempre os grandes mestres também possuem alguma informação relevante, mas que passou batida.

O “toca Raul” de Étienne de la Boétie (1 de novembro de 1530, Sarlat-la-Canéda, França - 18 de agosto de 1563, Bordéus, França) recebe o singelo nome de “Discurso da Servidão Voluntária”. ‘Servidão voluntária...?!’. “Mas que caralhos é isso?!?”. Calma, querido(a) freguês(a)... já, já vai passar.

Dotado de enorme erudição calcada na melhor tradição das Letras clássicas greco-romanas, la Boétie era um francês que viveu talvez no pior período daquele país. Se Victor Hugo sentou o relho nos políticos ‘de vigésima categoria’ em obras como seu conto “Claude Gueux”, logo ele, testemunha das decisivas revoluções de 1848, por que Étienne de la Boétie não podia dar seus pitacos?!

As exemplificações para os aspectos observados por la Boétie em o “Discurso da Servidão Voluntária” são predominantemente oriundas da clássica literatura grega. O que salva parte da leitura (em especial nessa edição da Martin Claret) são as notas do tradutor Casemiro Linarth, que dá um show de pesquisa em algumas obras da antiguidade não muito populares nos dias de hoje.

“Discurso da Servidão Voluntária” tornou-se razoavelmente conhecido nos últimos tempos por dois motivos: o primeiro, por ter sido texto-base da curadoria do Prof. Leandro Karnal para uma série de quatro palestras do Café Filosófico (TV Cultura/SP) com renomados especialistas, sempre em torno do tema ‘servidão voluntária’. O segundo é o assombro de um texto escrito por alguém no século XVI dizer tanto para os(as) descolados(as) do século XXI que... supostamente... humm... acho que... sabem de alguma coisa... devem saber... será?! #sqn

A crise brasileira e a quantidade de gente sem bússola pelas ruas de qualquer cidade são combustível para que uma obra como “Discurso...” volte à pauta. Não dá para deixar de lado o “Chão-de-Estrelas” de M. Boétie (o mesmo vale para Victor Hugo) ao depararmos com chefes de executivo que mais se assemelham aos ‘capi’ de qualquer boa quadrilha.

Num mundo político-partidário coalhado de quadrilheiros, somadas as quantidades abissais de gente que precisa de um psiquiatra para ontem, há de se intuir, pelo menos, que vivemos tempos para lá de bicudos. É aqui que entra o “Asa Morena” de M. Boétie: sempre foi assim ou agora o cangaço está avacalhado?!

A resposta é bem clara: o ser humano é um bichinho craque em avacalhar o cangaço. Ponto. É o alquimista às avessas: repousem uma pepita de ouro na palma de sua mão e a merda proliferará.

Em que pese a espinha dorsal da obra de la Boétie ser sua repugnância pelo tirano, a maravilha que o embevece permanece no “... mas por que caralhos essa multidão bajula esse(a) sujeito(a)?!?”. Não é uma resposta simples. Há inúmeros componentes para que a adesão ao tirano ocorra. O “Tostines Macabro” apontado por Étienne está justamente nesse ‘aderir’ da coisa: se ninguém se associar ao tirano, ele naturalmente perde a força. ‘Id est’, a tirania só existe (e é forte) porque colocamos lenha na fogueira.

Mas... então... por que colocamos lenha nessa fogueira, ó, raios?!

A resposta continua não sendo tão simples assim. O tirano possui posição de destaque (alcançada sabe-se lá como) e muita ‘bufunfa’ no bolso. Aí, fodeu...! Com a quantidade de descamisados ao redor do domo, é querosene na churrasqueira. O que há de explicar certa ojeriza que a Marilena Chaui tem da classe-média e a velha provocação do dramaturgo Nelson Rodrigues ao amigo de seu filho, Arnaldo Jabor, quando a ‘meninada’ se reunia para produzir aquele palavrório de esquerda, com muita “... burguesia...”, “... proletariado...” e afins: “Mas... meu filho... o Homem é classe-média”.

A pobreza e eternas situações ‘sob pressão’ corroem qualquer envergadura moral que se possa ter: é nessa que caem boa parte de nossos(as) conhecidos(as) que, diante da penúria, vendem a alma para o capeta e partem, sem pestanejar, para uma espécie de ‘meretrício branco’ (no conotativo e também no denotativo, ou, como queiram, no metonímico e no literal). Aí, fodeu...! Palmas para o tirano porque ele merece.

O problema é que o tirano atenta contra a segurança (numa abordagem mais Baumaniana da bagaceira transgênica) e tudo o que ele faz é produzir o mais pútrido chorume jamais visto. Uma hora, a casa cai! Nenhum chão sobre a face da Terra vai para frente com tirano promovendo coalizão “nas coxa” (no metonímico e no literal) por intermédio de um ‘sujinho’ jogo-de-bastidores na penumbra da coxia. Super simples, caro(a) freguês(a): isso atenta contra qualquer disposição para a garantia do bom andamento da Vida. Não se é possível trabalhar, produzir, comercializar, divertir-se, passear, beijar na boca, amar se algum(a) sujeitinho(a) ‘manda e desmanda’ na porra toda e vive a mudar a regra do jogo com a partida em andamento.

Por ter deixado esse mundo na ‘idade de Cristo’, talvez faltou a Étienne de la Boétie aquela boa e velha experiência do “tempo cronológico” que nos dá uma tarimba supimpa. Talvez, com algumas décadas a mais, tivesse ele um mergulho mais profundo nas águas turvas que constroem o ser humano. E, há quatro séculos antes, chegado à conclusão de Caetano: “(...) da força da grana que ergue e destrói coisas belas (...)”. Ou a de Eça, nas linhas finais de “O Mandarim”: “(...) ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!”.

Caso a eternidade abatesse sobre ele, um provável doce sabor de seus dedos deslizarem sobre vidros de telefones celulares como a prova mais irrefutável de uma incorrigível involução.

“Discurso da Servidão Voluntária”
Autor: Étienne de la Boétie
Editora: Martin Claret
(nº 304 da série “Coleção a Obra-Prima de Cada Autor)
Edição bilíngue
Tradução: Casemiro Linarth
132 páginas
Preço: R$ 22,00 (em média)



Marcelo Rayel Correggiari
nasceu em Santos há 48 anos
e vive na mítica Vila Belmiro.
Formado em Letras,
leciona Inglês para sobreviver,
mas vive mesmo é de escrever e traduzir.
É avesso a hermetismos
e herméticos em geral,
e escreve semanalmente em
LEVA UM CASAQUINHO